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Por que a espiritualidade é um diferencial para a liderança?
Em: 09/03/2016 por: Patrícia Bispo para o RH.com.br
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Enquanto muitas pessoas optam por defender e viver de forma individualizada seja no campo profissional ou profissional, felizmente existe uma parte significativa da sociedade que desponta para uma realidade completamente antagônica e que abraça a espiritualidade para todos os sentidos de suas vidas. E se registre aqui espiritualidade como sendo "um modo de ser e viver a vida e esse modo tem que ser refletido em nossas atitudes, em nossos comportamentos em todos os relacionamentos que temos na sociedade". E essa compreensão de vivência humanizada tem não tem ficado restrito apenas às ações pessoais, mas também tem sido leva para dentro das empresas.

De acordo com Robson Santarém, diretor da Anima Consultoria para Evolução Humana, se, por exemplo, somos líderes, a espiritualidade deve iluminar nossas decisões e ações, além do relacionamento com os liderados, os pares, os superiores e na própria maneira de gerir os negócios. "Se somos liderados, na maneira como nos relacionamos com o superior e também com os colegas. Se somos fornecedores, como prestamos nossos serviços e assim, em todos os nossos papéis sociais, seja no mundo corporativo, seja na nas famílias e nos diversos grupos sociais". Complementa.

Em entrevista concedida ao RH.com.br, o consultor fala, ainda, sobre os benefícios que uma liderança espiritualizada proporciona tanto a uma empresa quanto ao time que é gerido por ela. Vale lembrar, também, que Robson Santarém é um dos palestrantes da 10ª Edição do ConviRH (Congresso Virtual de Recursos Humanos) - evento promovido pelo site RH.com.br, no período de 12 a 27 de Maio próximo. Na oportunidade, Santarém ministrará a palestra em vídeo "Humanização nas Empresas", que poderá ser assistida 24 horas por dia pelos participantes do ConviRH, durante toda a realização do congresso. As inscrições para o 10º ConviRH já começaram e podem ser feitas pelo site - www.convirh.com.br. Confira a seguir a entrevista com Robson Santarém na íntegra e tenha uma agradável leitura! Até breve!

RH.com.br - Em 2005, conversamos exatamente sobre esse assunto: espiritualidade nas empresas e naquela oportunidade, o senhor mencionou que a espiritualidade seria "Um modo de olhar a si mesmo e a vida, além de nos ajudar a viver melhor". De lá para cá, o que sua experiência veio a acrescentar a esse entendimento?

Robson Santarém - Nossa! Já faz esse tempo?! Penso que seja isso mesmo Patrícia. Para mim a espiritualidade é um modo de ser e viver a vida e esse modo tem que ser refletido em nossas atitudes, em nossos comportamentos em todos os relacionamentos que temos na sociedade. Se somos líderes, a espiritualidade deve iluminar as nossas decisões e ações, além do relacionamento com os liderados, pares, superiores e na própria maneira de gerir os negócios. Se somos liderados, na maneira como nos relacionamos com o superior e também com os colegas. Se somos fornecedores, como prestamos nossos serviços e assim, em todos os nossos papéis sociais, seja no mundo corporativo, seja nas famílias e nos diversos grupos sociais. Nosso comportamento revela quem somos, não é mesmo? Pois a consciência de que a vida tem um sentido e que os valores que escolhemos definem quem somos, para mim, é algo profundamente espiritual. Mas, gosto de alertar, que ser espiritualizado não se trata de forma alguma de ser alienado. Muito pelo contrário, como digo, é preciso ser espiritual com o pé no chão, pois é no concreto, no dia a dia quando enfrentamos tantos desafios e dilemas que temos a oportunidade de viver aquilo que entendemos como ser espiritualizado. Ainda mais, viver assim exige compromisso com a justiça, com a ética, com a solidariedade, enfim com tudo que se refere ao respeito à dignidade humana e a construção de um mundo melhor.

RH - Nos últimos anos, a espiritualidade nas empresas passou a ser disseminada de forma mais constante. O que contribuiu para que isso ocorresse?

Robson Santarém - Nós vivemos uma crise de valores muito séria. O que está acontecendo em nosso país e também em muitas outras partes do mundo, como a guerra que leva milhões de refugiados para a Europa, é, no fundo, uma perda dos valores essenciais e do sentido da própria vida, quando se coloca interesses particulares - de um grupo - acima dos interesses do coletivo, do bem comum. Uma sociedade que fomenta o individualismo, a competição exacerbada e um frenético e fútil consumismo é uma sociedade doente. Vivemos, aquilo que chamamos de normose, a patologia da normalidade. Sofremos inúmeros problemas e nos anestesiamos com a normose. Todos os problemas são considerados "normais" e perdemos a capacidade de nos indignar para promover as mudanças necessárias. Porém, chega um momento, que a consciência começa a despertar e a gente se dá conta que não é por aí, a gente não aguenta mais viver desse jeito. Todos queremos viver melhor, mais qualidade de vida, mais respeito à nossa dignidade. Queremos ser felizes no trabalho e não sermos tratados como "recursos humanos", mas sim como gente. Creio que essa tomada de consciência é cada vez maior - é um processo evolutivo -, e tem levado os gestores a repensarem em primeiro lugar em suas vidas e, consequentemente, na maneira como conduzem os negócios. Por isso que falo que começa sempre no indivíduo, começa em cada um e nós, como agentes de transformação, provocamos as transformações nas empresas. Apesar de tudo, acredito que estamos evoluindo.

RH - E dentro das empresas, as pessoas passaram a ter uma visão mais consciente sobre o sentido da espiritualidade?

Robson Santarém - Penso que não é propriamente dentro das empresas, mas sim na vida. A empresa é um microcosmo da sociedade, não está separada. Estamos (re)descobrindo que a vida não pode ser reduzida a isso que ainda estamos vivendo, uma superficialidade e um materialismo que gera um imenso vazio no coração humano. Você deve saber que uma das doenças de maior incidência no mundo é a depressão em suas diversas manifestações. É assustador o índice de suicídios no mundo. E ainda tem as situações de estresse, da alta pressão, assédios etc. Pois bem, o que quero dizer é que esse vazio que está no coração humano pode ser preenchido quando tomamos consciência de quem somos nós. Vítimas de um modelo que nos fragmentou, passamos a viver, ou melhor, tentamos viver separando as coisas. Exemplos: separe vida pessoal de vida profissional, já ouviu isso não ouviu? Separe razão da emoção, seja mais racional! Separe as coisas espirituais das materiais e aí, ficamos esquizofrênicos! De tanto tentar separar, perdemos a nossa identidade, a nossa inteireza, a nossa integridade como ser humano. E para ser íntegro, isto é, para ser inteiro, precisamos considerar as nossas dimensões física, mental, emocional e espiritual. Quantos são tratados como seres humanos de verdade? Quantos não passam de "mão de obra" ou de apenas um "recurso", humano, mas podemos ser reduzidos a um "recurso"? Quando descobrirmos isso, nos damos conta do que nos falta e o que precisamos fazer, seja como indivíduo, seja nas empresas, pois também elas - como pessoas jurídicas -, precisam cuidar dessas dimensões.

RH - De que forma os líderes devem ser convidados e preparados para integrarem o processo de espiritualidade corporativa?

Robson Santarém - Em primeiro lugar, mudar o paradigma que ainda está presente em muitos de nós. A empresa concebida como uma máquina e os que nela operam não passam de "peças da engrenagem" é fruto do pensamento mecanicista e esse modelo não se aplica mais. É o mesmo modelo fragmentador que mencionei antes e que dividiu tudo em partes, nas empresas é o processo de departamentalização que dificulta ou até impede ter a visão do todo. Precisamos entender a empresa como organismo vivo e que para ser inteira e íntegra, precisa levar em conta as quatro dimensões que eu citei. Toda empresa tem a sua dimensão física que se refere aos aspectos materiais, não só a sua estrutura, mas, sua produtividade, rentabilidade e lucratividade como consequência de suas ações. Há uma dimensão racional que podemos relacionar a todo o conhecimento necessário para o seu funcionamento, inclui pesquisa e desenvolvimento, investimento na capacitação de todos. A dimensão emocional que é vital em todo indivíduo nos faz refletir sobre a importância dos relacionamentos harmoniosos entre todos, especialmente por parte das lideranças, da boa comunicação interpessoal e corporativa, capaz de gerar sentimentos de pertencimento e, por fim, para mim, a mais importante, pois dá sustentação a todas as outras é a dimensão espiritual que tem a ver com o propósito da organização na sociedade - o sentido da vida, com os seus valores e, obviamente, como os pratica, como se coloca a serviço do bem comum, isto é sua responsabilidade social e ambiental. Desse modo que podemos afirmar que toda organização tem uma função que é transcendente. Nesse sentido que as lideranças empresariais podem contribuir. Há muitos estudos e pesquisas que relacionam a longevidade das empresas e, portanto, à sua sustentabilidade, com a prática dos valores. Assim como é preciso rever os seus paradigmas a respeito da organização e da gestão, é preciso também olhar para si mesmo como novo olhar e perceber se está equilibrando as dimensões para ser humano por inteiro. Do contrário, não fará qualquer contribuição para as empresas, porque as organizações só se transformam se as pessoas se transformarem. Por isso, que afirmo que desenvolver competências de liderança implica em desenvolver o ser humano. Um ótimo líder precisa ser um ótimo ser humano. Para ser um excelente líder, precisa ser, antes de tudo, um excelente ser humano.

RH - Como podemos identificar um líder espiritualizado?

Robson Santarém - Essa é fácil! Como falei antes, é pelas atitudes. Sabemos que liderança é capacidade de alguém inspirar, influenciar outros para atingir objetivos e que a melhor maneira de se fazer isso, corrigindo, a única maneira de se fazer bem isso é através do exemplo. O que faz a diferença é e será sempre o caráter. Outra coisa: para evitar confusão ou mal entendido, um líder espiritualizado não quer dizer um líder religioso, diria que é um líder humano, até porque, digo que o líder, para ser considerado como tal, deve ser um especialista em relacionamento humano, deve gostar e entender de gente.

RH - Que benefícios um líder que institui a espiritualidade à sua gestão pode oferecer de diferencial à sua equipe e ao seu time?

Robson Santarém - Acho que espiritualidade não é algo que se "institui" à gestão como se fosse um "novo método" ou mais um modismo. Como falei é o que se vive e, ao viver, ele faz a diferença na maneira como se relaciona com a sua equipe e como conduz os seus negócios. Se o que faz a diferença é o seu caráter, líderes de verdade não criam os problemas que temos visto em tantas organizações, que mais envergonham os colaboradores do que dão orgulho de trabalhar nas empresas. Assim, penso que o grande diferencial e sua grande contribuição para as empresas será criar uma cultura organizacional sólida, baseada em valores humanos, quando faz isso, certamente vai resultar em um melhor clima. As pessoas que trabalham em equipes e empresas assim, sentem orgulho de fazer parte. E, é claro, que isso traz, como consequência, melhores resultados para a empresa, mais atração e retenção de talentos, maior comprometimento, melhor atendimento a clientes, redução de custos, de turnover entre outros fatores. Falo "retenção" entre aspas porque não gosto muito do termo. A empresa não tem que reter ninguém, isso me parece prender, ela precisa é criar um ambiente tal que todos queiram permanecer na organização. Quem faz isso são os líderes.

RH - Tornar-se um líder espiritualizado leva tempo ou isso varia de pessoa para pessoa?

Robson Santarém - Tornar-se humano leva a vida inteira. Você me entende? O processo evolutivo é para que sejamos o mais humano possível, e isso, para mim, é ser espiritualizado. Carl Jung falou sobre o processo de individuação que é o processo pelo qual todo ser humano é chamado a viver: tornar-se um ser inteiro, indivíduo significa isso: não pode ser dividido, é inteiro, pleno. É a trilha do autoconhecimento e é claro que varia como cada um vive esse processo, cada pessoa é única. Desenvolvi esse tema no meu livro Autoliderança - Uma Jornada Espiritual, Editora Senac Rio, onde afirmo que ninguém é competente para liderar os outros se não for capaz de liderar a si mesmo e para isso é preciso se tornar humano de verdade. É a própria jornada da vida, com seus desafios, seus percalços. Gosto muito da metáfora do mito do herói que eu explorei depois no livro As Bem-Aventuranças do Líder, Editora Vozes. Tudo começa pela tomada de consciência do nosso propósito, da nossa razão de ser, da missão que temos nessa vida. Cada um recebe um chamado, é preciso tomar consciência dele para cumpri-lo bem. Uma vez consciente do chamado, que para alguns pode ser muito cedo e para outros nem tanto, começa-se a longa jornada que implica em vencer desafios, enfrentar os inimigos - os piores são os internos, nossos medos, nossas fragilidades, contar com aliados, escutar os mentores e expandir a consciência, desenvolver a sabedoria para se tornar um ser humano melhor, e, no caso da liderança, digo, tornar-se um líder servidor. Por isso que escrevi no citado livro "Feliz aquele que empreende a jornada da própria transformação, será reconhecido pela transformação que provocou ao seu redor".

RH - Que fatores contribuem para que um líder fortaleça sua espiritualidade no dia a dia da sua gestão?

Robson Santarém - O propósito de se tornar uma pessoa melhor exige disciplina, determinação e abertura de mente e coração para aprender sempre com os outros, com os acontecimentos e até com os erros. A vida é um grande aprendizado. Uma prática que considero importante é o exercício da meditação, do silêncio para escutar a si mesmo e desenvolver a intuição, e se conectar com a sabedoria interior e para aqueles que têm alguma prática religiosa a sua ligação com o Sagrado através da oração e das práticas da sua tradição espiritual. Além de fortalecer o espírito, desenvolve-se também a inteligência emocional, que é fundamental para o exercício da liderança. Lembra-se das principais habilidades da inteligência emocional definidas por Daniel Goleman? Autoconsciência, controle emocional, automotivação, empatia e habilidade de relacionamento. Está vendo? Espiritualidade madura possibilita a inteligência emocional. Esse conjunto de habilidades favorece a boa gestão de e com pessoas.

RH - O que o senhor diria para uma liderança que pretende levar a espiritualidade para sua equipe, porém não sabe qual o primeiro passo que precisa ser dado?

Robson Santarém - O primeiro passo é ser um bom líder, ser humano de verdade ao tratar as pessoas e na maneira de conduzir os negócios. A maneira que gerencia é que faz a diferença. É pelo exemplo que inspira e influencia a equipe. E com o poder que lhe é atribuído, deve trabalhar para que a empresa seja humana, com sólidos fundamentos éticos. Como todo líder deve ser servidor e educador, coach da equipe, ele deve contribuir para o desenvolvimento dos liderados em todos os sentidos, não só na capacitação técnica, mas investir também no desenvolvimento das competências essenciais, as comportamentais e favorecer para que cresçam em maturidade e autonomia. Um líder cria líderes e não seguidores, como disse Tom Peters.

 

Robson Santarém:  Administrador, mestre em Pedagogia, com pós-graduação em Psicologia Junguiana, em Teologia, Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso, e formação holística pela Unipaz. É Sr. Coach com certificação internacional pelo ICI Integrated Coaching Institute/International Coaching Federation. Professor convidado do MBA em Gestão de Pessoas na UFF. Foi vice-presidente da ABRH-RJ. Autor de livros e de vários artigos publicados em jornais e revistas especializadas. 

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