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Cada vez mais pessoas trabalham além de 40 horas por semana, sob a ameaça constante da demissão. Isso faz sentido?
Em: 11/05/2015 por: http://experience.hsm.com.br/

Eu acho que não. Fazemos isso por catastrofismo: criamos a ilusão de que, se não trabalharmos tanto, vamos perder tudo. Não é verdade; o objetivo deve ser trabalhar menos, mas melhor. Esse é o santo graal a perseguir, porque a vida fora do trabalho é muito interessante também.

Há quase 20 anos, eu tinha muitas ocupações: jornalista, professor, consertava computadores, motorista, trabalhei num bar e restaurante... e gostava disso. Mas decidi trabalhar menos, e fiz sacrifícios para isso: ganhar menos, gastar menos. Decidi mudar porque gosto muito da vida fora do trabalho, há grandes oportunidades de descobertas nela.

Segundo Herminia Ibarra, do Insead, uma pessoa tem talvez umas cem identidades dentro de si, descobertas só quando exploradas. O modelo tradicional do trabalho destrói essa aventura das descobertas.

Sacrifícios incluem saber se controlar diante da internet?

Sim, a internet nos faz felizes, mas causa interrupções. E sabemos que quando trabalhamos é melhor não ter interrupções. A internet deveria ter um interruptor de liga-desliga, principalmente para o e-mail. Se ela não tem, nós devemos ter.

Muitos executivos dizem que o equilíbrio entre vida profissional e outras é que é uma ilusão.

Existem pessoas que creem nisso, de fato. Mas eu acho que há três equilíbrios que devemos buscar, descritos pelo poeta David Whyte.

Ele diz que temos, ao mesmo tempo, três casamentos em nossa vida: um com o trabalho, um com nós mesmos e um terceiro com nossa vida pessoal e social. E os três precisam ser bem cuidados.

Quando trabalha muitas horas por dia, uma pessoa não consegue manter o equilíbrio nos três casamentos –talvez, nem em dois deles.

Só quero acrescentar que equilíbrio é bom, mas não é tudo. Para mim, tem algo mais importante que ele: intervalo. Precisamos ter intervalo para não fazer nada, porque é nesse momento que surgem oportunidades, novas ideias.

Não quero nunca parar de trabalhar, mas faço intervalos no meu dia.

Reservar espaços ajuda a lidar com a pressão?

Nós, homens, gostamos de pressão, sabia? Mas devemos evitar a pressão; não precisamos dela, porque não gera resultados melhores, nem piores. É algo inócuo.

Quando participei da criação da revista Wired no Reino Unido, desenvolvi uma cultura de tranquilidade: o ambiente calmo persiste até hoje lá, apesar de ir contra a regra da maioria das redações.

Mulheres gostam de pressão tanto quanto homens?

Menos, segundo minha observação. Acho que porque muitas têm fontes de recompensa mais variadas.

Lembro, quando era jornalista foca, de ter entrevistado a CEO de uma empresa de materiais de construção que havia ganhado o prêmio "Businesswoman of the Year" no Reino Unido.

Eu lhe perguntei a diferença entre os homens e as mulheres nos negócios e ela disse: “Quando me reúno com mulheres, mesmo concorrentes, compartilhamos tudo, até leads, é muito bom; já em reuniões com homens, ninguém compartilha nada para que não ser roubado”.

Pressão tem a ver com falta de confiança. Não sei quando foi que nós, homens, nos tornamos tão desconfiados...

Como garantir que o horror ao workaholism não leve ao comportamento burocrático?

Ser viciado em trabalho é uma patologia mas temos de aceitar que há alguns viciados de um jeito bom, digamos assim, porque gostam muito do que fazem.

A maioria das pessoas, no entanto, não tem a doença e possui outros interesses na vida, preferindo trabalhar menos. Para não se tornarem burocratas, as empresas deveriam adaptar o trabalho a essas expectativas, o que faria com que gostassem de trabalhar.

Devo acrescentar que os dois extremos, o workaholism e o comportamento burocrático, são consequências do protestantismo, não do catolicismo. Nós, protestantes, aprendemos na escola que é trabalhar é o melhor da vida. Além de não ser verdade, ficou desnecessário trabalhar 40 ou 45 horas por semana com a tecnologia.

Então, os brasileiros, de cultura predominantemente católica, são mais equilibrados? A sensação é que somos ruins de gerenciar o tempo, muito sociáveis..,

Não posso responder isso 100%, mas parece-me que é funcional o modo como é gerido no mundo do trabalho no Brasil. Por exemplo, eu gosto de fazer reuniões de trabalho com brasileiros – apesar de preferir só com duas ou três pessoas –, porque o clima geralmente é relaxado, e isso leva a decisões boas.

É possível mudar o modelo mental coletivo em relação ao trabalho?

Não sei, mas esse é de fato o grande problema. Sabe como imaginamos o mundo do trabalho? Como uma máquina grande e complicada, cheia de processos, sistemas, inputs e outputs. Então, tentamos constantemente criar um mundo que funcione como uma máquina, só que nós funcionamos como humanos.

Uns dizem que o modelo mental do funcionário é semelhante ao do escravo, e o empreendedorismo, em especial o da internet, surge como carta de alforria. Você concorda com essa ideia?

Não sou fã da mentalidade muito pró-empreendedorismo, para dizer a verdade. Principalmente a do Vale do Silício, onde se pensa que, se a tecnologia pode fazer algo, deve fazê-lo.

A tecnologia não pode mandar; ela não é mestre, mas ferramenta. Nós usamos a tecnologia se e quando escolhemos usá-la. Nós é que precisamos estar no controle.

Há empresas investindo em programas de felicidade para os seus colaboradores, como o Google. Isso melhora ou piora o equilíbrio das pessoas?

Em primeiro lugar, felicidade é algo muito pessoal. Em segundo, empresa não é fábrica de felicidade; seu único papel é ganhar dinheiro; até suspeito de uma empresa de capital aberto que usa o dinheiro dos acionistas para criar felicidade em vez que fazer crescer o capital deles.

Quanto ao Google, conheço pessoas que trabalham lá e não ficando jogando videogame.

Em muitos casos, o discurso da diversão é só uma forma de fazer com que as pessoas trabalhem muitas horas. Será que elas não prefeririam trabalhar menos, para ter mais tempo fora do ambiente de trabalho? Todos deveriam ler o romance The Circle, de Dave Eggers, que imagina o mundo controlado pelo Google. É mais ou menos assim: …Eu te dou diversão e você me dá sua vida!”

 “O português do Brasil é minha língua favorita”

David Baker estava em Londres, quando concedeu esta entrevista por Skype, falando quase totalmente em português. Recorreu ao inglês em poucas expressões, como “the Holy Grail” (santo graal), e disse ter dificuldades de pronunciar algumas palavras, como “empreendedorismo”. Seu primeiro contato para valer com o português foi quando morou durante cinco anos com um brasileiro em Londres. Baker se baseou em músicas, principalmente de Caetano Veloso e Marisa Monte, nesse aprendizado inicial, restringindo o vocabulário a temas como amor, melancolia, coração partido.

Depois disso, decidiu se aprofundar e tem aulas na Casa do Caminho, ONG localizada em Ipanema, no Rio de Janeiro, quando vem ao Brasil. “Aprendi muito, mas quero aprender mais e melhor. O português do Brasil é minha língua favorita; as pessoas falam quase cantando”. O elogio não é pouco vindo de alguém que também fala francês, espanhol, italiano e hebraico, entre outros idiomas. “Falo muitas línguas, mas com muitos erros; o importante é me comunicar, porque assim surgem as amizades.”

Duas lições que Baker aprendeu no Brasil

  • Desvalorizar o tempo: Uma das diferenças culturais entre a cultura brasileira e a anglo-saxônica é como o tempo é tratado. Para os ingleses, horário marcado é exato. “Atrasar para uma reunião é o mesmo que roubar o tempo do outro. Como tempo é dinheiro, é como roubar dinheiro e, então, quem atrasa é inimigo”, diz Baker. Entretanto, o jeito é diferente no Brasil. E o resultado é espaço para nascerem ideias e criatividade.

O “jeitinho” brasileiro: “Os ingleses gastam muita energia pensando no futuro, enquanto os brasileiros só tratam de um assunto quando o problema acontece, e não antes”, comenta Baker. O problema é o custo maior, como por exemplo nos investimentos necessários em infraestrutura, num curto período de tempo, para a Copa do Mundo. Porém, ele vê como vantagem a criatividade que flui. 

Saiba mais sobre David Baker

Quem é: Professor, jornalista, escritor, radialista, coach e consultor, vive entre Londres e Rio de Janeiro. Foi um dos fundadores da The School of Life no Brasil.

Alguns temas abordados: economia, hemodiálise, antropologia cultural, equilíbrio profissional e pessoal, parques temáticos etc.

Como se equilibra: Mergulhador profissional, gosta de ler, cozinhar e caminhar. Não tem perfil no Facebook e lê e-mails só duas vezes por dia.

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