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O Haiti é aqui.
Em: 05/09/2014 por: Maurício Oliveira - Você RH

Os haitianos já somam 20.000 no país e se transformam em alternativa de mão de obra para empresas que sofrem com a escassez de profissionais.

Aos 41 anos, Santo Cherubin deixou mulher e dois filhos no Haiti para tentar a vida no Brasil, incentivado por amigos e colegas que vieram antes e mandavam notícias sobre a disponibilidade de emprego com remuneração bem superior à que ele recebia na fábrica artesanal de móveis em que trabalhava.

A entrada se deu pela Região Norte, assim como tem ocorrido com milhares de haitianos que buscam por aqui um recomeço depois do terremoto de 2010, que devastou um dos países mais pobres das Américas.

Cherubin foi acolhido num alojamento montado em Brasileia, no Acre, para recepcionar os haitianos, reconhecidos pelo governo brasileiro como refugiados por razões humanitárias, com direito a visto de permanência por seis meses e autorização para trabalhar.

Foi de lá que ele saiu para trabalhar no almoxarifado da Brascabos, fabricante de componentes elétricos e eletrônicos com sede em Rio Claro, no interior de São Paulo. A empresa foi uma das pioneiras na contratação dos haitianos, fenômeno que começou discretamente há dois anos e ganhou força à medida que a notícia foi se espalhando e mais indústrias passaram a organizar incursões ao alojamento.

Entre o fim de 2010, ano da tragédia, e o fim de 2013, estima-se que 20.000 haitianos entraram no Brasil. O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) projeta que o número de imigrantes poderá chegar a 50.000 até o fim deste ano.

De acordo com entrevistas realizadas pelos especialistas do ministério com os imigrantes, os motivos da atração que o Brasil tem despertado entre os haitianos incluem o protagonismo das tropas brasileiras no processo de pacificação do país e o vínculo decorrente da realização de um amistoso de futebol entre a seleção brasileira e a do Haiti, em 2004, evento que ficou conhecido como Jogo da Paz.

Na prática, quando chegam aqui, eles descobrem que podem melhorar de vida. Cherubin, por exemplo, recebe um salário de 1.300 reais e todos os benefícios oferecidos aos demais funcionários, incluindo plano de saúde, cesta básica e alimentação no refeitório da empresa.

Está conseguindo mandar dinheiro todo mês para o Haiti e economizar uma parte, poupança destinada ao projeto de trazer a família. “Quero ficar no Brasil, que me recebeu bem e me deu uma oportunidade de recomeço”, diz.

Sua história é semelhante à de outros haitianos que chegam ao país. “Eles são disciplinados e demonstram muita força de vontade para alcançar o que planejaram”, diz o diretor-geral da Brascabos, Glauber Marçal Rizzi. O executivo esteve pessoalmente envolvido com o tema desde as primeiras contratações de haitianos feitas pela empresa.

"Já tínhamos recrutado alguns para nossa unidade de Manaus quando dois deles simplesmente apareceram aqui no meio de um feriadão”, afirma. Rizzi contratou a dupla e a encaminhou para uma pensão da cidade, além de emprestar 400 reais do próprio bolso para que conseguissem se manter nos primeiros dias. Dois anos se passaram, e os “pioneiros” continuam integrando o quadro da empresa, ao lado de 55 compatriotas que chegaram depois.

Quando decidiu ampliar o quadro de haitianos em Rio Claro, a Brascabos foi ao Norte e recrutou 12 deles, assegurando salário, alojamento e alimentação durante os três meses de experiên­cia. Deu certo, e o programa foi ampliado em seguida com um novo grupo de 30 trabalhadores.

A área de recursos humanos da empresa aproveitou a chegada dos estrangeiros para promover a diversidade e criar uma campanha interna em prol da tolerância e do combate ao preconceito e à discriminação. Essa mesma preocupação foi de certa forma estendida à relação deles com a cidade, de 180.000 habitantes.

A empresa nomeou uma espécie de “tutora” para acompanhá-los e aconselhá-los. “A gente se sente responsável por eles e fica feliz com cada passo positivo que dão”, diz a gerente de RH, Marcela Benitez Jaque.

Legião de haitianos

Na cooperativa Aurora, produtora de alimentos com sede em Chapecó, no oeste catarinense, e 15 unidades espalhadas por pequenas cidades da região, a legião de haitianos já conta com mais de 500 integrantes — o que a transforma, provavelmente, na maior contratadora de trabalhadores oriundos do país. Apesar disso, o discurso da companhia é reduzir o peso dessa condição.

“Não vemos nenhum grande diferencial entre o desempenho dos trabalhadores haitianos e o dos brasileiros nem entre os haitianos e os muitos outros estrangeiros que temos em nosso quadro de 23.000 funcionários”, diz o gerente corporativo de gestão de pessoas, Nelson Rossi.

“Buscamos tratar todos da mesma forma, embora haja diferenças culturais que respeitamos. Mas, do ponto de vista profissional, são todos iguais e sujeitos às mesmas exigências e aos mesmos benefícios.”

Por causa da carência de mão de obra em toda a região oeste de Santa Catarina, a Aurora chega a buscar funcionários diariamente num raio de até 100 quilômetros de distância dos respectivos locais de trabalho. Diante desse quadro, o reforço representado pela chegada dos haitianos é muito bem-vindo.

A empresa decidiu recrutar dois grandes grupos diretamente em Brasileia — um deles composto de 100 pessoas e outro de 150 — oferecendo, além de salário em torno de 1.200 reais e do pacote convencional de benefícios, aulas de português e seis meses de alojamento e hospedagem.

A outra metade dos haitianos contratados pela Aurora chegou à região de forma espontânea, motivada pelas notícias sobre a abundância de oportunidades de trabalho.

Essa conjuntura os deixa relativamente seguros de que poderão se lançar a “aventuras” — como pedir demissão para ganhar até 100 reais por dia em hotéis e restaurantes do litoral catarinense durante a alta temporada de verão ou para colher uvas e maçãs na Serra Gaúcha no período de fevereiro a março — e ainda assim ter emprego garantido na volta a Chapecó e seus arredores.

A Aurora já ajudou vários haitianos a realizar o sonho de trazer a família para o Brasil — especialmente no que diz respeito aos aspectos práticos e burocráticos envolvidos. Rossi diz que o grupo é considerado de fácil relacionamento e que os haitianos são bem recebidos pelos colegas brasileiros

“O pessoal se mobiliza para dar apoio inicial nas atividades mais corriqueiras, como ir junto ao supermercado. E eles colaboram bastante para essa empatia, pois em geral são educados e alegres”, diz o executivo.

Nem todas as empresas, porém, obtiveram êxito na experiência com os haitianos. A Cerâmica Constrular, da pequena cidade catarinense de Pouso Redondo, com 15.000 habitantes, recrutou 11 deles, mas nenhum chegou a completar seis meses de casa.

“Imaginamos que o simples fato de serem do mesmo país seria suficiente para uni-los, mas ocorreram alguns desentendimentos. Além do mais, bastava surgir uma oportunidade que pagasse apenas um pouco mais, e eles nos deixavam”, afirma o diretor administrativo, Juarez Schiochet.

Na avaliação do executivo, o desempenho profissional da maioria dos haitianos também ficou abaixo da expectativa. “No começo, eles eram muito dedicados, mas com o tempo passaram a demonstrar certa resistência a cumprir normas e a seguir as orientações dos superiores”, diz.

O fluxo de haitianos em direção ao Sul do Brasil aumentou bastante após o fechamento do abrigo de Brasileia, em abril, quando quase 2.000 imigrantes ficaram simultaneamente desabrigados — boa parte foi enviada a São Paulo pelo governo do Acre e dali seguiu para várias outras cidades.

“São pessoas com uma marca de sofrimento muito grande e que ficam ainda mais fragilizadas com a viagem e a distância da terra natal. Estamos tentando conhecê-las melhor para entender suas demandas, que vão além do trabalho e envolvem também saúde, educação e habitação”, diz a diretora de assistência social do governo de Santa Catarina, Simone Machado. “As empresas que dão emprego a eles são mediadoras muito importantes nesse processo.”

Alguns dos haitianos surpreendem os recrutadores com currículos superqualificados para as funções mais básicas das indústrias — 15% dos que entraram no Brasil têm pelo menos o ensino secundário completo e apenas 1% é analfabeto. É comum também que esses profissionais sejam fluentes em espanhol e francês.

O próximo grande desafio, para esses, é encontrar no Brasil a oportunidade para retomar o exercício da profissão para a qual se prepararam. Embora 70% dos haitianos tenham se declarado satisfeitos com a vida aqui, as entrevistas feitas pelo Ministério do Trabalho e Emprego identificaram alguns problemas no campo profissional, como a dificuldade em compreender os descontos feitos na folha de pagamentos.

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